Dormência
Lisbeth Lima
As palavras sempre estiveram comigo em estado de dormência. Anos a fio elas me acompanharam tesas. E eu as conservei quietas, caladas. Hoje elas me ultrapassam e eclodem aos montes: em pedaços de papel, guardanapo ou folha. Agora tento organizar em buquê, o que cresceu das sementes.
É primavera. Flores nos jardins das casas, parques e ruas. Nos mercados vendem sementes e bulbos. Compro sementes. Algumas cismam em não brotar. É primavera, há dias com chuva, outros frios. Mas tenho girassóis que nasceram e crescem na janela da cozinha. Outro dia comprei clementinas. No pacote tinha quase um pedido de desculpas, algumas delas poderiam conter sementes. O que vai ser das pitombas, macaúbas e pinhas nesse tempo de facilidades para os comedores? Uma das minhas clementinas tinha sementes. Plantei. Não sei se vou sentir o perfume da flor de laranja, mas quero acreditar que a primavera vai entrar na minha casa.
Escrito por Ana Marinho às 11h23
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