Zelo
Para Analice e Valéria
Durante algumas noites tive a companhia de duas amigas que zelavam meu sono e da miúda. Letícia passava as tardes numa agonia sem fim: cólica, nariz congestionado, viver deve doer mesmo, agonia de crescer, fome. E isso ia até oito da noite, quando as duas caíam no sono. Eu, que fazia análise para resolver um medo sem explicação dos finais de tarde, me entregava aos cuidados das amigas, sentava no sofá da sala e aceitava todos os conselhos. E vinham as histórias, os filhos, já grandes, que agora inspiram outros cuidados: se demoram para chegar em casa, se já namoram, se vão sofrer com os homens e mulheres que não sabem o que é zelar por alguém. E quanta coisa cabe nesse verbo. Nessa língua que pouco me inspira zelador é caretaker; para cuidar você precisa sempre de um to (take care). E em todos os dicionários aparece sempre cuidar de si mesmo (to take care of yourself). Dicionários antes de tudo são livros de auto-ajuda. Hoje, desse outro lado do mundo, estamos, eu e Letícia, em inglês e português, cuidando para que o sol entre na casa e na vida das nossas graúdas; puxando o cordão de nuvens que trazem chuva quando faz aquele calor de doer (saudades desse tempo...); negociando com a lua minguante e convencendo São Jorge a deixar a lua cheia mais umas horinhas no céu, cenário para os encontros. E a miúda acaba de me acenar que é hora de puxar o fio da noite e levar soninho reparador para as nossas zeladoras.
Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz
Escrito por Ana Marinho às 21h07
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|