Aula de literatura
20 minutos – dormiu no berço. Rápido para o banheiro, escovar os dentes, lavar o rosto - velha, velha, olha o pescoço?! E o cabelo? Essa história de dormir de cabelo molhado não pode dar certo; essa água, cloro puro. Só assim sabia o porquê daquelas inglesas com os cabelos armados. Um gemido. Subo a escada, o diabo da tábua que range logo na porta do quarto. Nada, só uma reclamação. Cozinha. Tanto prato, tinha esquecido como pia junta prato. Os vizinhos lá, fumando e conversando. A roupa da moça, bonita, o casaco deve ter custado oitenta libras. E vão juntar aquele cigarro todo num copo, deve ser uma técnica para deixar de fumar. Tem aquela lata de coca-cola que está lá desde que cheguei. Devia fazer um arroz. Esqueci de tirar o frango do congelador. Cortar gelado mesmo. Azeite, alho, a casa toda tem esse cheiro. Vou ligar o exaustor, aí não escuto a miúda. Vou ligar assim mesmo. Desligo. Ligo. Podia sair um pouco de casa: vestir roupa, meia calça é o fim! Vestir a miúda, aquele plástico de chuva do carrinho, trabalheira, vai chorar até sair de casa, depois dorme. Luva é osso! E essa mão que fica suada o tempo todo, gelo. Roupa na máquina. Tinha logo que fazer esse barulho, justo agora. Escada. A tábua, na porta do quarto. A miúda acorda já-já. Lambe-que-lambe as mãos. Escada. O arroz quase bom. O frango, só trazendo a miúda para baixo. Diabo que Aécio tinha que colocar essa roupa na máquina, vai assustar a miúda se descer com ela para a cozinha. Meu joelho, o diabo da tábua na porta do quarto! Dorme de novo! Como? Será que respira? A tábua perto do berço. Podia morar no térreo, deve ser menos barulhento. Droga, acordei a miúda. Dorme meu passarinho, minha fulozinha de pereiro, minha fulozinha de mameleiro. Que risada mais linda!
20 minutos – dormiu no peito. Devia cortar as unhas. Quase acordo a miúda. Que história era aquela que os franceses ensinam a rasgar a unha dos bebês, só francês mesmo, deve doer. Judiam demais dessas criaturas. Tesoura sem ponta, cortar as unhas, como deve ser isso em inglês? Ai, ai, quase corto o dedo da miúda. Veio logo com a mão de Aécio, unha difícil. E unha em inglês? Valha meu Deus, tá osso! Deixa só essa meu passarinho, chiiiii, chiiii. Se soprar resolvesse... Conversa de Edilene, que será de Edilene? Vou perguntar pra Lisbeth. Podia mandar umas fotos de Letícia para os imãos. A menina não sai de casa, só tem foto no berço, na sala, de pijama. O diabo da máquina que não funciona direito, será que tem conserto? A outra mão. Dedinho. Dedo eu sabia, como é mesmo? Finger. E tem polegar, indicador, fura-bolo, cata-piolho? Tem nada! O gato, nem era hora. Não saio dessa página de Nava, onde tava mesmo? Não vou conseguir terminar nunca esse livro. Ai meu braço... Tá formigando a perna, se mexer acorda. Ai... Meu passarinho, minha fulozinha de angico, e angico tem flor? Temmmm...
20 minutos – da cama para o berço. Chiii, Chiii... Devia dormir também. O diabo da tábua. Chiii... Vou comprar uma cama que não range. Chiii... Ai, não, minha fulozinha de pereiro, dorme mais um pouquinho...
20 minutos – tempo da escritura.
Escrito por Ana Marinho às 10h10
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