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Sonho
Mudei. Nada metafísico ou existencial, nada comparado aos depoimentos de mulheres que revelam uma transformação sem igual depois da maternidade. Estou alguns centímetros menor, não lembro dos fatos recentes, tenho medo de sair na rua, tenho sonhos que não mereceriam nem dois minutos no divã. Sonho que ainda estou com a miúda nos braços quando já dei de mamar pela terceira vez durante a noite e ela dorme no berço. Sonho que saí do ônibus e deixei a menina no carrinho. Sonho que Aécio está comprando dois carros (até para pegar ônibus temos que planejar as finanças) e um relógio de parede (as paredes da casa são de madeira e qualquer furo vira motivo para não receber o dinheiro da caução no fim do contrato – dinheiro que daria para comprar um carro velho no Brasil). Mas o que mais me incomoda é o esquecimento. Nas conversas com as amigas que tiveram filhos sempre achei estranho o fato de que todas elas tinham lapsos incríveis de memória. Depois cheguei à conclusão de que para ter mais de um filho as mulheres nascem com um defeito passageiro de memória, não fosse isso a humanidade estaria completamente ameaçada. Esquecem-esquecem e aí quando dão fé lá vem outro pacotinho para casa. Todo dia lembro dos primeiros quinze dias, dos dias seguintes aos primeiros quinze dias. Disso ainda lembro. Meus problemas não são nada existenciais (já disse isso). Como vou pegar ônibus se todos os dias tenho que perguntar o número do que vai para o centro? O nome das vizinhas nem adianta repetir, só sei que uma delas é polonesa e a outra espanhola e as duas trabalham num restaurante de comida italiana. Como vou aprender essa tal língua se num dia sei os nomes das roupas e comidas, no outro vou comprar água na venda da esquina e o rótulo está em turco? Não bastasse uma gravidez para me fazer esquecer das coisas ainda tenho que aprender a falar inglês numa cidade em que todos os rapazes que seguram placas na Oxford Street são paulistas, o que se escuta no ônibus é árabe ou alguma língua de África e no rádio aulas de chinês. Quero dormir e ter sonhos completamente cifrados, quem sabe algum deles revele o motivo de estar com tanto medo de sair na rua, de não saber pedir ajuda em inglês quando for preciso, de continuar diminuindo de tamanho e desaparecer (e eu que não ia entrar em questões existenciais...)
Escrito por Ana Marinho às 17h02
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