30miudos


Dormência

Lisbeth Lima

As palavras sempre estiveram comigo
em estado de dormência.
Anos a fio elas me acompanharam tesas.
E eu as conservei quietas, caladas.
Hoje elas me ultrapassam
e eclodem aos montes:
em pedaços de papel, guardanapo ou folha.
Agora tento organizar em buquê,
o que cresceu das sementes.


 

É primavera. Flores nos jardins das casas, parques e ruas. Nos mercados vendem sementes e bulbos. Compro sementes. Algumas cismam em não brotar. É primavera, há dias com chuva, outros frios. Mas tenho girassóis que nasceram e crescem na janela da cozinha. Outro dia comprei clementinas. No pacote tinha quase um pedido de desculpas, algumas delas poderiam conter sementes. O que vai ser das pitombas, macaúbas e pinhas nesse tempo de facilidades para os comedores? Uma das minhas clementinas tinha sementes. Plantei. Não sei se vou sentir o perfume da flor de laranja, mas quero acreditar que a primavera vai entrar na minha casa.



Escrito por Ana Marinho às 11h23
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Zelo

Para Analice e Valéria

Durante algumas noites tive a companhia de duas amigas que zelavam meu sono e da miúda. Letícia passava as tardes numa agonia sem fim: cólica, nariz congestionado, viver deve doer mesmo, agonia de crescer, fome. E isso ia até oito da noite, quando as duas caíam no sono. Eu, que fazia análise para resolver um medo sem explicação dos finais de tarde, me entregava aos cuidados das amigas, sentava no sofá da sala e aceitava todos os conselhos. E vinham as histórias, os filhos, já grandes, que agora inspiram outros cuidados: se demoram para chegar em casa, se já namoram, se vão sofrer com os homens e mulheres que não sabem o que é zelar por alguém. E quanta coisa cabe nesse verbo. Nessa língua que pouco me inspira zelador é caretaker; para cuidar você precisa sempre de um to (take care). E em todos os dicionários aparece sempre cuidar de si mesmo (to take care of yourself). Dicionários antes de tudo são livros de auto-ajuda. Hoje, desse outro lado do mundo, estamos, eu e Letícia, em inglês e português, cuidando para que o sol entre na casa e na vida das nossas graúdas; puxando o cordão de nuvens que trazem chuva quando faz aquele calor de doer (saudades desse tempo...); negociando com a lua minguante e convencendo São Jorge a deixar a lua cheia mais umas horinhas no céu, cenário para os encontros. E a miúda acaba de me acenar que é hora de puxar o fio da noite e levar soninho reparador para as nossas zeladoras.

Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz



Escrito por Ana Marinho às 21h07
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Cortinas

 

Terminada uma construção, lá estão elas. Cortina esconde. Os ingleses são reservados, não querem saber do que se passa nas salas e quartos dos vizinhos. Nada disso! Atrás das cortinas lá estão eles espiando tudo. Um barulho na rua, uma luz que se acende na casa vizinha, um som. E a senhora, distinta, nos seus cabelos brancos e sapatos azuis, vendo e ouvindo tudo por uma fresta.

 

Eu deixo as cortinas abertas. Quero ver o dia lá fora. Durante a noite, fecho as cortinas. As luzes, cá dentro, estão agora acesas.



Escrito por Ana Marinho às 14h44
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Aula de literatura

20 minutos – dormiu no berço. Rápido para o banheiro, escovar os dentes, lavar o rosto - velha, velha, olha o pescoço?! E o cabelo? Essa história de dormir de cabelo molhado não pode dar certo; essa água, cloro puro. Só assim sabia o porquê daquelas inglesas com os cabelos armados. Um gemido. Subo a escada, o diabo da tábua que range logo na porta do quarto. Nada, só uma reclamação. Cozinha. Tanto prato, tinha esquecido como pia junta prato. Os vizinhos lá, fumando e conversando. A roupa da moça, bonita, o casaco deve ter custado oitenta libras. E vão juntar aquele cigarro todo num copo, deve ser uma técnica para deixar de fumar. Tem aquela lata de coca-cola que está lá desde que cheguei. Devia fazer um arroz. Esqueci de tirar o frango do congelador. Cortar gelado mesmo. Azeite, alho, a casa toda tem esse cheiro. Vou ligar o exaustor, aí não escuto a miúda. Vou ligar assim mesmo. Desligo. Ligo. Podia sair um pouco de casa: vestir roupa, meia calça é o fim! Vestir a miúda, aquele plástico de chuva do carrinho, trabalheira, vai chorar até sair de casa, depois dorme. Luva é osso! E essa mão que fica suada o tempo todo, gelo. Roupa na máquina. Tinha logo que fazer esse barulho, justo agora. Escada. A tábua, na porta do quarto. A miúda acorda já-já. Lambe-que-lambe as mãos. Escada. O arroz quase bom. O frango, só trazendo a miúda para baixo. Diabo que Aécio tinha que colocar essa roupa na máquina, vai assustar a miúda se descer com ela para a cozinha. Meu joelho, o diabo da tábua na porta do quarto! Dorme de novo! Como? Será que respira? A tábua perto do berço. Podia morar no térreo, deve ser menos barulhento. Droga, acordei a miúda. Dorme meu passarinho, minha fulozinha de pereiro, minha fulozinha de mameleiro. Que risada mais linda!

 

20 minutos – dormiu no peito. Devia cortar as unhas. Quase acordo a miúda. Que história era aquela que os franceses ensinam a rasgar a unha dos bebês, só francês mesmo, deve doer. Judiam demais dessas criaturas. Tesoura sem ponta, cortar as unhas, como deve ser isso em inglês? Ai, ai, quase corto o dedo da miúda. Veio logo com a mão de Aécio, unha difícil. E unha em inglês? Valha meu Deus, tá osso! Deixa só essa meu passarinho, chiiiii, chiiii. Se soprar resolvesse... Conversa de Edilene, que será de Edilene? Vou perguntar pra Lisbeth. Podia mandar umas fotos de Letícia para os imãos. A menina não sai de casa, só tem foto no berço, na sala, de pijama. O diabo da máquina que não funciona direito, será que tem conserto? A outra mão. Dedinho. Dedo eu sabia, como é mesmo? Finger. E tem polegar, indicador, fura-bolo, cata-piolho? Tem nada! O gato, nem era hora. Não saio dessa página de Nava, onde tava mesmo? Não vou conseguir terminar nunca esse livro. Ai meu braço... Tá formigando a perna, se mexer acorda. Ai... Meu passarinho, minha fulozinha de angico, e angico tem flor? Temmmm...

 

20 minutos – da cama para o berço. Chiii, Chiii... Devia dormir também. O diabo da tábua. Chiii... Vou comprar uma cama que não range. Chiii... Ai, não, minha fulozinha de pereiro, dorme mais um pouquinho...

 

20 minutos – tempo da escritura.



Escrito por Ana Marinho às 10h10
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Sonho

Mudei. Nada metafísico ou existencial, nada comparado aos depoimentos de mulheres que revelam uma transformação sem igual depois da maternidade. Estou alguns centímetros menor, não lembro dos fatos recentes, tenho medo de sair na rua, tenho sonhos que não mereceriam nem dois minutos no divã. Sonho que ainda estou com a miúda nos braços quando já dei de mamar pela terceira vez durante a noite e ela dorme no berço. Sonho que saí do ônibus e deixei a menina no carrinho. Sonho que Aécio está comprando dois carros (até para pegar ônibus temos que planejar as finanças) e um relógio de parede (as paredes da casa são de madeira e qualquer furo vira motivo para não receber o dinheiro da caução no fim do contrato – dinheiro que daria para comprar um carro velho no Brasil). Mas o que mais me incomoda é o esquecimento. Nas conversas com as amigas que tiveram filhos sempre achei estranho o fato de que todas elas tinham lapsos incríveis de memória. Depois cheguei à conclusão de que para ter mais de um filho as mulheres nascem com um defeito passageiro de memória, não fosse isso a humanidade estaria completamente ameaçada. Esquecem-esquecem e aí quando dão fé lá vem outro pacotinho para casa. Todo dia lembro dos primeiros quinze dias, dos dias seguintes aos primeiros quinze dias. Disso ainda lembro. Meus problemas não são nada existenciais (já disse isso). Como vou pegar ônibus se todos os dias tenho que perguntar o número do que vai para o centro? O nome das vizinhas nem adianta repetir, só sei que uma delas é polonesa e a outra espanhola e as duas trabalham num restaurante de comida italiana. Como vou aprender essa tal língua se num dia sei os nomes das roupas e comidas, no outro vou comprar água na venda da esquina e o rótulo está em turco? Não bastasse uma gravidez para me fazer esquecer das coisas ainda tenho que aprender a falar inglês numa cidade em que todos os rapazes que seguram placas na Oxford Street são paulistas, o que se escuta no ônibus é árabe ou alguma língua de África e no rádio aulas de chinês. Quero dormir e ter sonhos completamente cifrados, quem sabe algum deles revele o motivo de estar com tanto medo de sair na rua, de não saber pedir ajuda em inglês quando for preciso, de continuar diminuindo de tamanho e desaparecer (e eu que não ia entrar em questões existenciais...)



Escrito por Ana Marinho às 17h02
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São Jorge

Meus projetos de passar das vinte páginas recebem ameaças todos os dias. A miúda não tem dado trégua. DE e TI - dedicação exclusiva e tempo integral. Quando dorme, de noite, fico imaginando o que vou escrever. Sou feito poeta popular, primeiro elaboro na cabeça depois passo para o papel. Criei um texto sobre o fetiche dos ingleses com os carrinhos de bebê; outro sobre a minha primeira saída sozinha com Letícia, um passeio pelo parque num dia de sol (para contrariar os que esperam um inverno londrino); outro ainda sobre uma saída para o centro da cidade (visita aos pontos turísticos, para meu desespero que não vi nada, só a miúda - se tinha frio, se dormia, se dava para passar no meio do povo que fazia fotos dos cavalos e meninos de vermelho da guarda da rainha). E soube que a minha foto da janela do quarto iniciou um concurso entre os amigos que lêem os blogs dos amigos. O que vejo da minha janela é só o tempo lá fora, como dizia o Renato Russo. Sento na cama, enquanto a miúda me morde o peito, acarinha as costas e me olha com olhos de quem sabe mais sobre mim do que eu mesma, e vejo os quintais das casas dos ingleses. Tem um gato enorme que fica na janela de uma casa das oito e meia até as nove e quinze, sempre! Outro gato, menos caseiro, se aventura numa subida de árvore. Subir tudo bem, o problema é descer, e não tem bombeiro de filmes americanos não. Fica lá a manhã toda. Tem duas árvores caídas, chaminés que servem para colocar as antenas de tv e uma árvore seca, lugar de passarinho preto que parece anum. Ontem vi a lua e para meu espanto o São Jorge tava escalando um morro. Sobe Jorge e me tira daqui, vamos eu e a miúda entrar para os contos de fadas, viver aventuras em outros lugares, sair de casa e encontrar o tempo lá fora!



Escrito por Ana Marinho às 08h45
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Da janela do quarto



Escrito por Ana Marinho às 14h44
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Quando fiz trinta anos criei uma pasta no computador - miúdos. Escrevia em tardes de agonia, crônicas de uma viajante em meios acadêmicos. Estava concluindo tese, vivendo sozinha, ouvindo as brasileiras que cantam as músicas de Chico. Em João Pessoa a diversão era ver filmes ruins no cinema (os bons passavam no Banguê, um dia sem som outro sem imagem) e esperar um festival de arte que acontece todos os anos. No verão ensaiava tomar sol, fazer caminhadas, tudo não passava da primeira semana, das primeiras queimaduras na pele, dos primeiros encontros na praia (os mesmos do cinema, do teatro, da universidade). E a tese era sempre a pergunta. Escrevi umas vinte páginas. Outro dia procurei os arquivos e descobri que tinha perdido numa das visitas de vírus. A pasta miúdos sumiu. Hoje, aos 36, abro outra pasta. Agora tenho uma miúda de dois meses, um projeto de viver em Londres, junto com Aécio, nos próximos quatro anos e muitas tardes pela frente. Vamos ver se passo das vinte páginas.

Escrito por Ana Marinho às 14h51
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